Do Rio 40º a Moscou -20º: Brasil faz sua estreia no Vôlei na Neve

Jogadores brasileiros comemoram ponto debaixo de muita neve em Moscou (Divulgação)

Que o vôlei é um dos esportes mais populares e vitoriosos do Brasil ninguém duvida. Nas últimas quatro edições olímpicas, são quatro medalhas de ouro nas quadras e mais duas na praia. Agora, o país começa a desbravar uma versão mais nova, e bem diferente, do esporte praticado no país: o Vôlei na Neve. 

O Brasil foi convidado para participar da primeira etapa do Circuito Europeu da modalidade, que aconteceu em Moscou, na Rússia, entre 20 e 23 de dezembro. É a primeira vez que o país compete em um torneio oficial do esporte. Emanuel e Giba participaram de uma demonstração nos Jogos Olímpicos de PyeongChang, mas a atividade era totalmente recreativa. 

Oscar Brandão, Luciano Ferreira, Márcio Gaudiê e Vinicius Freitas foram os escolhidos para representarem o Brasil na competição. Os quatro atletas são provenientes do Vôlei de Praia e foram convidados pela CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) para formarem a equipe inédita e encararem essa verdadeira aventura. 

"Um amigo meu, que trabalha lá na Rússia, comentou do interesse em contar com uma equipe brasileira e uma dos Estados Unidos na abertura da temporada do vôlei de neve e a gente aceitou esse desafio. Resolvemos encarar, apesar de ser complicado sair do Rio 40 graus para -20º em Moscou", brinca Oscar ao Brasil Zero Grau.

A baixa temperatura, aliás, não foi a única preocupação dos brasileiros. A equipe chegou à Rússia no dia 20 para estrear no dia seguinte. Ou seja, teve um rápido treino para se adaptar não apenas à nova superfície, mas a todos os equipamentos necessários para a disputa, como chuteiras com traves para evitar escorregões na neve e roupas de proteção contra o frio intenso. 


"Normalmente a minha mala eu coloco bermudas, bonés e óculos de sol para encarar o circuito de vôlei de praia. Agora tive que colocar calça térmica, gorro, roupas de frio", diverte-se Oscar, que foi campeão da etapa de Mavagnat, na Turquia, do Circuito Mundial de Vôlei de Praia de 2018.

Apesar da temperatura negativa e da pouca nenhuma experiência na neve, os brasileiros não fizeram feio. Com vaga direta nas oitavas de final, a equipe enfrentou três times russos em sua campanha. Nas oitavas, conseguiu derrotar o grupo formado por Firsov, Kramarenko e Daianov por 2 sets a 1 (15:11, 13:15 e 21:19). Nas quartas, derrota de 2 a 1 para Shabalin, Polikarpov, Markov e Kayumov (16:14, 13:15 e 11:15). Já na repescagem, mais um tropeço de 2 a 1 para Bobrikov, Mikhalev, Smorchkov e Durnin (13:15, 16:14 e 15:17). 

Dona da casa, e presente com oito equipes desde a fase classificatória, a Rússia dominou o pódio na primeira etapa do Circuito Europeu de Vôlei na Neve. Na final, o título ficou com Korolev, Hudyakov, Bykanov e Semenov, que venceram seus compatriotas Shabalin, Polikarpov, Markov e Kayumov por 2 a 1 (15:12, 16:18 e 8:15). Já Rakusov, Bogatov, Kuzmin e Bakhnar levaram o bronze ao derrotarem o time da Eslovênia na disputa do terceiro lugar. 

O time brasileiro não foi o único 'intruso' no torneio. Apesar de ser uma competição continental, a Confederação Europeia de Vôlei (CEV), responsável pelo evento, distribuiu convites para nações tradicionais com a intenção de popularizar o esporte. Os Estados Unidos, por exemplo, competiram com Lloy Ball, campeão olímpico em 2008 e que estava aposentado desde 2011. 

"A gente aceitou porque é justamente um desafio novo. Representar o Brasil é algo que a gente sempre almeja em nossa carreira", prosseguiu Oscar. 

Para o Brasil, a nona colocação na classificação final e o fato de ter jogado bem em situações bem adversas (todas as partidas foram decididas no tie-break) mostram a força que os atletas nacionais possuem no vôlei, mesmo em sua versão na neve. Dessa forma, com o trabalho de adaptação adequado, o país pode evoluir com a modalidade e, caso se torne olímpico, sonhar até com voos mais altos. 

"É uma modalidade bem legal se você parar e pensar. Acredito realmente que há espaço para o vôlei nos Jogos de Inverno. Torço para que ele vire olímpico. Já temos quadra e praia, por que não neve? É um desejo de grande parte dos atletas. Conversei com o Bruno Schmidt [campeão olímpico em 2016] antes de embarcar e ele mesmo comentou que tem vontade de jogar na neve. É uma torcida de todos", conclui Oscar.


Afinal, o que é o Vôlei na Neve?

Trata-se de mais uma variação do tradicional esporte na quadra, mas disputada em uma superfície de neve. De simples brincadeira até pouco tempo atrás, a modalidade cresceu em importância e foi abraçada pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei). A meta é repetir o sucesso da versão na praia e também entrar para o programa olímpico, mas de inverno. 

As disputas do Vôlei na Neve começaram de forma totalmente despretensiosa: foi, literalmente, uma brincadeira entre amigos. O austríaco Martin Kaswurm é apontado como idealizador ao adaptar uma quadra de neve em frente a seu restaurante em 2008. O sucesso foi imediato. Em 2011, o Comitê Olímpico Austríaco reconheceu a brincadeira como esporte, e em 2015, foi a vez da Confederação Europeia de Vôlei fazer o mesmo.

No ano seguinte, começou o Circuito Europeu de Vôlei na Neve e, neste ano, aconteceu o primeiro Campeonato Europeu com as melhores equipes do continente. Com apoio da FIVB, o objetivo é realizar o primeiro Campeonato Mundial em 2020, no mesmo ano em que a modalidade deve ser esporte de demonstração nos Jogos Olímpicos da Juventude de Inverno em Lausanne, na Suíça. 

As regras são praticamente as mesmas do Vôlei de Praia: quadra de 16 x 8 metros, com rede de 2,24 metros no feminino e 2,43 metros no masculino. Os pontos são marcados quando uma equipe consegue finalizar a jogada na quadra adversária após três toques ou a partir de um erro dos rivais (seja bola para fora ou na rede). 

Contudo, há algumas diferenças importantes. A principal delas é na quantidade de atletas. Neste ano, a FIVB determinou que são três competidores (mais um substituto) na equipe ao invés de dois. São disputados até três sets de 15 pontos (e não 21, como na Praia) e o bloqueio não conta como um toque quando um trio resolve contra-atacar. Além, é claro, da roupa especial para suportar a temperatura mais fria e o sapato adequado para conseguir andar e saltar nos mais de 30 centímetros de neve.


Brasil na vanguarda dos esportes de inverno

O Vôlei não é o único esporte de verão que pretende incluir uma categoria no programa olímpico de inverno. Em 2014, o Triatlo criou uma versão típica para o clima mais frio em que o atleta, ao invés de pedalar, nadar e correr, participa de provas de esqui cross-country, patinação de velocidade e snowshoeing, corrida na neve com aqueles sapatos que parecem raquetes. 

Conhecido também como Triatlo de Inverno S3, o esporte também cresce a cada ano e contou com um "empurrãozinho" do Brasil. Na primeira etapa da nova modalidade, o esquiador brasileiro Hélio Freitas, presente nos Jogos Olímpicos de 2006, representou o país na competição. O país também tem representante no Esqui Montanhismo, que busca ganhar espaço nos esportes de neve, e é uma das principais forças do Eisstocksport para convencer o COI no programa olímpico. 

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