Mulheres brasileiras querem abrir portas no Pan de Hóquei no Gelo

Ana Boghosian, de amarelo, integra o time brasileiro (German García)

Foram anos de espera, mas as mulheres que praticam o hóquei no Brasil finalmente irão realizar um sonho antigo. Um grupo de 13 atletas irá representar o país no Pan-americano de Hóquei no Gelo nesta temporada. A competição começa nesta segunda-feira, dia 5, e prossegue até 11 de junho na Cidade do México. A estreia das brasileiras será contra a Argentina, a partir das 13h (horário de Brasília). 

A formação da equipe ficou a cargo da BR Hockey, empresa que promove o esporte no país. Essa é a primeira vez que um time 100% nacional vai participar de um torneio internacional oficial no hóquei no gelo. Em 2015, cinco brasileiras participaram da competição com um time misto ao lado de atletas mexicanas. 

"É, no mínimo, um sonho de longa data sendo realizado, mas temos muita água pela frente. A gente tem que ter a maturidade de entender que não é apensa chegar lá e acabou. É chegar lá, dar o seu melhor e lutar por um time cada vez mais estruturado, mais complexo e físico. Precisamos de um trabalho consistente e trabalhar em cima de um sonho compartilhado", comenta Ana Boghosian, uma das convocadas. 

Diferentemente das outras jogadoras, Ana começou no esporte justamente em um rink de gelo ao acompanhar o irmão nos treinamentos da equipe Mad Parrots em 2005, no Rio de Janeiro. Ela treinou no local até seu fechamento, em 2012. Depois disso, aperfeiçoou seus treinamentos no inline e representou o Brasil no Mundial FIRS em 2014. Atualmente, ela mora em Boston, nos Estados Unidos, e participa da MA Hockey League

Mesmo com essa trajetória no esporte, Ana Boghosian e as demais atletas sabem que o mais importante nessa estreia internacional é justamente aprender e ganhar experiência. Além das argentinas e colombianas, que participaram das outras edições do Pan-americano, as mexicanas estão embaladas após conquistarem o título inédito do Grupo B da Divisão 2 do Mundial de Hóquei no Gelo da IIHF. 

Sonia Casanova (Eiji Yoshimura)
"Queremos abrir as portas para atletas de hóquei de todo o Brasil, mostrar que é possível. A direção do evento está encantada com nossa inédita presença. Infelizmente o Brasil ficou muito atrás. Estamos indo lá para tirar esse atraso", comenta Sônia Casanova, outra jogadora convocada. 

Ela fala com a autoridade de quem é capitã da equipe e vivenciou todas as dificuldades do hóquei no Brasil. Cirurgiã-dentista, Sônia começou no esporte por intermédio dos filhos: ela levava as duas meninas e o rapaz para treinarem, mas como normalmente tinha um número reduzido de jogadores, calçou os patins e começou a treinar para aumentar o quórum de participantes. 

Não parou mais e se envolveu com o hóquei brasileiro. Esteve presente no Pan-americano de 2014 como integrante da equipe B do Canadá. No ano seguinte, foi uma das cinco brasileiras que participaram do time misto. Atualmente joga e treina no AABB de São Paulo e também pelo Pebas Hockey, de Tocantins, na Liga Brasileira de Hóquei.

"Esse anos vamos mostrar capacidade de organização e empenho. E, quando voltarmos, imediatamente daremos início aos preparativos para 2018. Esse ano abrimos o livro. No ano que vem vamos escrever a nossa história", prossegue a capitã brasileira. 

A disputa feminina do Pan-americano de Hóquei no Gelo tem cinco equipes - Brasil, Argentina, Colômbia e dois times do México. Os países jogam entre si em turno único na primeira fase e os quatro melhores avançam às semifinais. O líder enfrenta o quarto colocado e o segundo joga contra o terceiro. Os vencedores destes confrontos fazem a decisão do torneio. 


Veterano do hóquei inline comanda a equipe

Essa aventura só foi possível graças ao convite da organização do Pan-americano à BR Hockey, empresa responsável pela Liga Brasileira de Hóquei nessa temporada. A entidade encarou o desafio e convidou Pedro Raposo, um dos pioneiros da modalidade no país, para comandar o time feminino na competição. 

Pedro Raposo como atleta do time brasileiro (Arquivo Pessoal)
Ele é um veterano do hóquei brasileiro e sua trajetória confunde-se com a história do esporte nos anos 90. Ainda adolescente, ele foi um dos fundadores da equipe No Limits, um dos times mais tradicionais do país. Também esteve presente na primeira seleção brasileira que participou de um Mundial de Hóquei Inline, em 1996, e de um Mundial da IIHF, em 1999. Pedro acumulou 13 anos como atleta, sete deles como capitão, e diversos títulos conquistados. Bagagem que ele espera ajudar na empreitada do Pan-americano. 

"Lembrando de minhas competições internacionais, duas coisas são notórias em um evento como este. A primeira é que os resultados são difíceis de serem conquistados e a segunda é que o aprendizado é gigantesco. Há um ditado que diz que os bons atletas aprendem mais nas derrotas do que nas vitórias. Se formos bons o suficiente para termos a capacidade de aprender com cada detalhe, nosso objetivo estará alcançado e tomaremos isto como base para os próximos anos", confirma Pedro ao Brasil Zero Grau. 


O principal desafio, claro, é reunir um grupo de mulheres que moram em diferentes lugares, sem um rink de gelo e com pouca experiência nessa superfície. A recomendação da comissão técnica às atletas consistiu no treinamento físico. O treino técnico e tático só foi desenvolvido após a chegada delas no México, nos últimos dias. "Temos que iniciar de alguma maneira e evoluir com o tempo, dedicação e planejamento para as próximas competições", afirma o treinador. 

Equipe quer servir de exemplo às jovens atletas

Como o objetivo dessa temporada é aprender ao invés de buscar apenas o resultado esportivo, a equipe de brasileiras no Pan-americano de Hóquei no Gelo espera que essa participação inédita possa representar o ponto de partida para o desenvolvimento do esporte no país. Principalmente com a representatividade de mostrar um time feminino 100% nacional. 

"A gente acha que não, mas o exemplo pesa muito, especialmente para meninas pequenas que estão começando a jogar agora. Ver que não são apenas os meninos que podem jogar competições internacionais dá a elas uma razão para se esforçarem cada vez mais. Motivação é primordial: se a gente consegue fazer, resta à nova geração melhorar", explica Ana Boghosian. 

Além disso, elas também esperam mostrar por meio do Pan que é possível migrar do hóquei inline para o gelo - mantendo, dessa forma, a motivação das jovens jogadoras que sonham em competir no esporte. 

"O desenvolvimento de uma modalidade está totalmente relacionado à oferta de eventos em número e em qualidade. Os jovens treinam para competir. Nessa linha, o Pan-americano de Hóquei no Gelo é um grande incentivo. É um evento voltado a países com o mesmo nível de desenvolvimento no esporte. Todo atleta de inline sonha em jogar no gelo", afirma Sônia. 

Afinal, é seleção brasileira? 

A equipe foi formada a partir da iniciativa da BR Hockey, uma empresa privada que não possui vínculo com confederações esportivas do Brasil. Dessa forma, esse grupo de atletas não teve homologação da CBDG - uma das obrigatoriedades para chamá-lo de "seleção". Contudo, essa questão burocrática não diminui o esforço e os feitos conquistados pelas brasileiras. Sem dúvida, é o primeiro passo para a consolidação das mulheres no hóquei brasileiro. 

Confira as integrantes da equipe brasileira e a tabela de jogos: 

Goleiras: Ana Fernandes do Nascimento e Pollyana Lopes de Oliveira
Defensoras: Sônia Casanova, Natália Jaguaribe de Faria, Tatianna Fusaro, Aline Carvalho Magalhães e Marcela de Souza
Atacantes: Nancy Acuña, Ana Carolina Boghosian, Tallyta Tomaz de Lima, Ana Carolina Romero, Camila Amaral da Silva e Keila Espindola de Souza
Técnico: Pedro Raposo 

5 de junho - 13h - Brasil x Argentina
6 de junho - 14h - Brasil x México A
7 de junho - 10h15 - Brasil x Colômbia
8 de junho - 16h15 - Brasil x México B

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