O embrião do primeiro rink de gelo do Brasil

Nas últimas semanas você leu aqui sobre as aventuras das seleções brasileiras masculina e feminina de hóquei inline na disputa do Mundial. Foram mais derrotas do que vitórias, reforçando a necessidade de um trabalho a longo prazo e com estrutura. O que poucos sabem, porém, é que, em maio deste ano, o esporte deu o primeiro passo para conseguir o tão sonhado rink de gelo no Brasil.

O local fica no Clube Escola Vila Guarani, na região do Jabaquara (zona sul de São Paulo) e é fruto de uma parceria entre o espaço, a Prefeitura da capital paulista (através da Secretaria de Esportes) e a Federação Paulista de Hockey no Gelo, braço estadual da CBHP, na versão inline, e CBDG, na versão no gelo.Coube à Prefeitura a cessão de R$ 300 mil para a reforma da quadra de concreto - entrei em contato com a assessoria de imprensa da pasta, mas não obtive retorno. Já a instituição esportiva será responsável pela manutenção e desenvolvimento de projetos esportivos. 

Foto durante treino da seleção na nova pista (Mauro T./Divulgação/FPHG)

A obra já está pronta e recebeu treinos da seleção masculina de hóquei inline pouco antes de embarcar para o Mundial Inline da IIHF (torneio que o país participou após um hiato de quatro anos. Entretanto, ainda será necessária uma engenharia complexa para transformar o lugar em um rink de gelo.

Feita com uma superfície de concreto queimado, a princípio será destinado exclusivamente para a prática de inline. Mas como foi construído para ter a dimensão de uma quadra olímpica, com 60 por 30 metros, os jogadores podem treinar com as mesmas regras e táticas, facilitando uma possível adaptação no futuro.

"Podemos praticar o hóquei inline com regras de gelo, como cinco jogadores na linha, impedimento na linha azul e full check - é como o esporte sobre rodas é praticado na Flórida e na Alemanha, por exemplo. Com isto, formaremos atletas que já terão conhecimento sobre posicionamento, táticas e as regras do gelo, minimizando a carga de adaptação que enfrentam sempre que viajam para jogar no gelo", comenta Salvador Neto, jogador e diretor da Federação Paulista de Hóquei no Gelo.

A entidade já corre atrás de patrocinadores para bancar essa transformação. A ideia é utilizar quadras desmontáveis, aproveitando as medidas oficiais. Elas serão provenientes da empresa holandesa Ice World, líder mundial deste segmento. Assim, o futuro rink (caso vingue) será o segundo da América do Sul, também provisório, ao lado do espaço em Ushuaia, na Argentina. 

Uma parceria com a organização já foi acertada: com condições de pagamento facilitadas, o Brasil receberia a pista desmontável, os equipamentos para a manutenção, como o Zamboni (aquele "tratorzinho" que limpa o gelo), mais de mil pares de patins para recreação e até mesmo treinamento de técnicos da empresa para manter a estrutura.  

Mais um lance (Mauro T./Divulgação/FPHG)
"A manutenção  não é o grande desafio. Estamos estudando sobre a 'fabricação' e manutenção de quadras de gelo desde 2011 e, deste estudo, surgiu essa parceria com a IceWorld", prossegue Salvador Neto. 

Mas isso é apenas quando aparecer verba para o sonho. Por enquanto, a próxima etapa é esperar as obras da colocação de cobertura para a quadra e a instalação do piso plástico utilizado nos mundiais inline. Só depois disso haverá a transição da quadra propriamente dita. Mas conversas seguem adiantadas com possíveis investidores, que se empolgaram com a visibilidade que os esportes de gelo tiveram durante os Jogos Olímpicos de Sochi.

"Ter um pico de interesse depois das Olimpíadas de Inverno já era comum. O que surpreendeu este ano foi a enorme demanda por crianças querendo aprender patinação artística por conta da Isadora Williams. O momento de abertura desta quadra é perfeito e com ela podemos absorver boa parte deste público em São Paulo", afirma Salvador. 

O Projeto Colômbia

Treinar com as regras de gelo numa pista de inline foi uma lição aprendida pelos brasileiros no Pan-Americano de Hóquei no Gelo, disputado no México, em março. Na ocasião, a seleção colombiana, mesmo sem qualquer pista de gelo, demonstrou uma rápida adaptação e conseguiu surpreender a todos. 

"Ao chegarmos no México esperávamos que o Canadá dominasse o torneio, por terem mais tradição, que o México fosse a segunda força por ter várias quadras oficiais de gelo e que houvesse um equilíbrio entre Brasil, Argentina e Colômbia. Porém, surpreendentemente, os colombianos tiveram um time muito forte e bem adaptado ao gelo", afirma Salvador Neto. 

A receita era simples: trazer as regras de gelo para as inúmeras quadras de inline que o país possui. Aliás, o crescimento do país latino foi realmente impressionante nos últimos anos. Com o técnico norte-americano Jeff Prime, considerado um dos melhores do mundo, os praticantes de hóquei por lá iniciaram um trabalho de longo prazo que já começa a dar frutos. É esse o exemplo que o Brasil quer instalar aqui. Além da adaptação de rinks, o escrete canarinho também importou o treinador Jeff Prime.


Curto, Médio e Longo Prazo

Com a primeira quadra do país em dimensões olímpicas, a Federação Paulista de Hockey no Gelo, em conjunto com as confederações nacionais competentes, já começa a esboçar planos de curto, médio e longo prazo. 

Curto Prazo: criação de uma seleção permanente de hóquei e elaboração de escolas de iniciação ao hóquei, patinação artística e patinação de velocidade, todos no inline, por enquanto. Assim que a pista desmontável de gelo chegar, criar escolas para essas modalidades no gelo. 

Médio Prazo: o cronograma de atividades para a temporada 2014-2015 já está em fase de finalização. O Brasil queria disputar a Copa Fim do Mundo de hóquei no gelo, em Ushuaia, mas a competição, que seria em agosto, foi transferida para julho e isso atrapalhou os planos. Além disso, a seleção busca se adaptar melhor para a segunda edição do Pan-Americano de Hóquei no Gelo (que deve acontecer durante a semana de Carnaval em 2015) e pretende enviar os jogadores nacionais para uma semana de treino intensivo e amistosos na República Tcheca, em dezembro. 

Longo Prazo: além de desenvolver a modalidade no gelo por aqui, a meta é inserir o Brasil em competições internacionais da IIHF e, principalmente, buscar apoiadores e patrocinadores para a construção de um rink permanente de gelo, possibilitando a criação de um Centro de Treinamento para a patinação, hóquei, bobsled, skeleton, luge e até mesmo curling. Esse projeto, porém, ainda é um sonho bem distante.

Um comentário:

  1. Ótima matéria Gustavo, cada vez mais fã do brazil zero grau! abraços e continue com seu trabalho!

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