A pioneira!

Aline se prepara para lançamento (Arquivo Pessoal)

Imagina o seguinte: você trabalha em um emprego normal numa pacata cidade de 25 mil habitantes no Canadá, onde os maiores desafios é driblar o frio intenso e o verão sem noite. De repente, você abre seu e-mail e descobre que foi convocado para representar o Brasil no Mundial do esporte que você pratica. 

Cena de filme? Nem tanto. Afinal de contas a história que parece ser de ficção aconteceu com a brasileira Aline Gonçalves. Ela será a parceira de Marcelo Mello na disputa do Mundial de Duplas Mistas de Curling no fim deste mês, na Escócia. Como você já viu aqui, o Brasil foi confirmado de última hora para disputar a competição no lugar da seleção búlgara. 

"Não é todo dia que você recebe um e-mail dizendo que foi convocada para representar o Brasil internacionalmente. Fiquei muito feliz e ao mesmo tempo um pouco preocupada, já que a responsabilidade também é grande", confirma Aline em entrevista exclusiva para o Brasil Zero Grau. 

Quando ela erguer a bandeira brasileira para Dumfries, sede do evento, não estará levando apenas as ambições pessoais na bagagem. Os lançamentos que ela fizer no evento miram algo além e podem acertar até mesmo na formação de uma inédita equipe feminina.

A boa participação no Mundial de Duplas Mistas é considerada crucial para o desenvolvimento da modalidade no país. Tanto para os homens, cujo time foi desfeito em 2011 com a crise da CBDG, quanto para as mulheres, que podem montar uma equipe inédita. 

Mas boa, aqui, não quer dizer necessariamente vitórias. Sem qualquer tradição na modalidade, o Brasil competirá contra alguns dos melhores times do mundo.  "Estaremos competindo com times mais preparados e bem mais experientes, mas esperamos que o fato de não termos muita pressão do nosso lado possa nos dar confiança pra sermos bons competidores", reconhece Aline.

Ela própria ainda tem muito o que aprender. Começou a praticar curling em 2011 por influência de amigos. "Queríamos nos divertir", afirma. Mas a diversão virou coisa séria. Começou a jogar para valer e praticar por conta própria no clube em Whitehorse, Yukon, onde mora. Participou de competições regionais e admite não ter experiência  em eventos de grande porte.

Aline Gonçalves (Arquivo Pessoal)
Desenvolveu uma certa habilidade e confiança no jogo, a ponto de criar coragem e descobrir a página da seleção brasileira de curling no Facebook. Entrou em contato querendo saber se havia outras jogadoras. 

"Fui descoberta a partir daquele comentário". Raphael Monticello, reserva de Marcelo no Mundial, e integrante de um grupo de brasileiros que jogam curling em Vancouver, entrou em contato com ela e fez a ponte com o diretor da CBDG. "O próprio Marcelo me telefonou alguns dias depois. Ele tinha planos de tentar um campeonato de duplas, não ainda neste ano, mas no ano que vem. Combinamos de formar uma parceria ali". 

Entretanto, quis o destino - e a desistência da seleção búlgara -, que o plano fosse antecipado por um ano. O convite para o Mundial de Duplas Mistas em Dumfries fez o Marcelo, nome favorito para o representante masculino, correr atrás de uma mulher para inscrever o país. Havia Aline e Alessandra, que também jogava em Vancouver. Entretanto a disponibilidade de tempo para treinos e participação anterior em competições foram diferenciais. 

"Estou ansiosa, sem dúvida! Já disputei alguns jogos e um pequeno bonspiel na categoria duplas, mas não é algo tão grande no Canadá. Não existe uma liga de duplas mistas no clube em que eu pratico, por exemplo. Não conheço muitos clubes por aqui que tenham essa categoria", afirma.

O nervosismo é justificável. Aline sequer imaginava que poderia viajar para disputar um Mundial de Curling quatro anos atrás, quando foi morar no Canadá. 

Ela nasceu em São Paulo, mas cresceu em Piracaia, cidade do interior paulista localizada na Serra da Mantiqueira. Voltou para a capital e se formou em Biblioteconomia e Documentação na USP. Começou a trabalhar na universidade e concluiu seu mestrado em Ciência da Informação. 

Em 2010 surgiu a oportunidade de se mudar para o Canadá. Continua trabalhando como bibliotecária numa instituição de ensino superior em Whitehorse, Yukon, uma cidade que fica a duas horas de carro da fronteira com o sul do Alasca. Imagina o frio que ela passa por lá! Não à toa que o município é conhecido como um dos mais áridos do país norte-americano. Os invernos tendem a ser escuros e frios, com temperaturas que chegam a -45ºC e os verões são amenos e com muita luz; no ápice da estação praticamente não anoitece.

Frio, inexperiência, falta de seleção oficial... tudo parecia jogar contra a Aline, que mesmo assim já fez história: é a primeira atleta brasileira de curling a competir em um torneio internacional.

"Não imaginava me transformar em atleta. Mas ao mesmo tempo, acho que as coisas tomaram o seu curso natural, já que eu acabei me envolvendo competitivamente em quase todas as modalidades esportivas que pratiquei. Nunca foram competições de grande nível ou de grande importância, mas vez por outra eu me vejo competindo, apesar de não ser atleta profissional. Portanto o fato de eu me tornar atleta de curling não é algo que eu imaginava em princípio, mas não é uma surpresa".

E assim ela se diz pronta para seguir em frente na modalidade. Agora, Aline quer mais:

"A possibilidade de desenvolver uma equipe feminina existe e gostaria muito de participar desse desenvolvimento. Não sei se seria possível fazer isso no Brasil porque ainda não existe um local específico e com gelo apropriado para a prática no país, mas com certeza o plano existe. A intenção, pelo menos por hora, é tomar como base as meninas que tem praticado no Canadá e desenvolver um time a partir de treinamentos em conjunto, participação em clínicas e torneios. Minha participação nesse processo pode ser ou como jogadora ou provendo algum tipo de orientação para o time. Não tenho grande experiência no esporte, mas acho que posso dar uma contribuição". 

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