A pedra está lançada

Marcelo Mello com a pedra: momento crucial para o país (Divulgação)

Quando surgiu a notícia, muitos não acreditaram. O Brasil foi confirmado em cima da hora para o Mundial de Duplas Mistas no Curling. É a primeira participação brasileira em um torneio internacional de grande porte deste simpático esporte de gelo que chamou a nossa atenção nos últimos dois Jogos Olímpicos de Inverno.

Entretanto, audiência não se transforma em tradição instantaneamente e com o convite surgiram questionamentos: afinal de contas, o que o Brasil irá se meter contra países bem mais fortes na modalidade sem ter um tempo sequer para se planejar?

"O objetivo é claro: inserir o nome do Brasil em um campeonato mundial de Curling, ganhar ainda mais o apoio da WCF para o Curling brasileiro e adquirir experiência neste tipo e formato de competição", confirma Marcelo Mello, capitão da equipe brasileira, melhor jogador e diretor técnico da modalidade na CBDG. 

Ele concedeu uma entrevista exclusiva para o Brasil Zero Grau e trouxe todos os detalhes desse e de outras surpresas que o curling proporcionou nas últimas semanas. Explicou melhor a situação da pista de curling que pode ser construída no país (mas que ainda depende de muitos acertos burocráticos) e espera remontar uma equipe ainda neste ano para desafiar os EUA na Copa Challenge em janeiro de 2015! Confira a entrevista completa!

Mundial de Duplas Mistas

"Na verdade temos vaga direto para os Mundiais de Duplas Mistas. No entanto, já não existia mais tempo, pois as inscrições já haviam sido feitas e os participantes estavam definidos. Houve a desistência da Bulgária de última hora, e aí eles aceitaram a nossa participação no campeonato no lugar dos búlgaros"

Expectativa

"Quanto ao campeonato, é preciso ser realista e saber que não vai ser nada, nada fácil. Não apenas pelo fato de ser um Mundial, onde o nível é muito elevado, mas principalmente por não termos praticado nada de duplas durante está temporada e, ainda, por nem conhecer minha parceira de time. Vamos encarar não só duplas de países fortes no Curling (estrear no primeiro dia contra a Suécia e a Escócia - dois dos três países mais tradicionais no esporte - não é necessariamente uma coisa fácil!). Também porque estas duplas na sua sua maioria já participaram da competição, treinam para isto e tem técnico, o que não é o nosso caso, pois tudo foi de última hora. Isto não é desculpa, mas uma constatação, pois estou encarando isto como uma grande oportunidade. Se conseguirmos fazer alguns jogos equilibrados, já vai ser muito legal. E quem sabe, beliscar uma, quem sabe duas, três vitórias… seria o éden! Sei lá, uma coisa que aprendi é que o Curling também é muito jogado dentro da cabeça. Tem que acreditar, porque pode ser que o outro fraqueje antes de você, que se coloque em dúvida, e você tem de estar pronto para aproveitar! Se eu dissesse que não penso em sair de lá com pelo menos com uma vitória, estaria mentindo, mesmo sabendo que as condições não serão nada favoráveis"

Preparação

"A preparação será a mínima possível, pois o campeonato está em cima e soubemos da vaga na última hora. Por sorte fiz uma temporada intensa e estou bem preparado tecnicamente. Tenho me preparado fisicamente e mentalmente, pois isso vai ser bastante importante também. A Aline também está bem preparada fisicamente. Vou me encontrar com ela em Vancouver e vamos treinar e jogar algumas partidas. Depois, nos encontramos em Montreal uma semana antes e vamos treinar com um técnico e jogar amistosos".

Experiência

"Joguei apenas jogos amistosos e não foram muitos, há algum tempo. O jogo é um pouco diferente estrategicamente: tem muito mais draws do que take-outs, muda bastante o estilo, a questão de levantar, julgar e varrer a própria pedra. Sem dúvida vamos sentir, principalmente no início. Estou vendo o maior número de jogos que posso para 'adaptar' meu cérebro".  

Diferenças entre 2009 e 2014

"São muitas! Em 2009 e 2010 tivemos tempo de nos preparar, jogar, ter técnico, etc. Mas éramos mais inexperientes, menos vividos no curling. A Aline joga a quatro anos e eu a seis. Não é tanto assim, mas não somos tão novatos como era a equipe masculina em 2009. Na média acredito que agora é mais favorável, mas só poderia responder com certeza se tivéssemos treinado durante a temporada"

Futuro

"Queremos lançar novamente o desafio contra os EUA neste fim de ano [nota do blog: o desafio vale vaga para o Mundial da temporada. Geralmente o time norte-americano não tem rival e fica com a vaga direta]. Dessa forma queremos formar uma nova equipe e jogar a Copa Challenge em janeiro de 2015. Com relação ao feminino, descobrimos quatro, cinco meninas que jogam. Agora vamos em que nível estão e o que é possível ser feito para prepará-las o mais rápido possível".

Pista no Brasil

"Estive em Copenhague (Dinamarca) no congresso da WCF em setembro passado e eles estão muito interessados no Brasil. Existem conversas para nos ajudarem técnica e financeiramente. No entanto precisamos ainda viabilizar o local com alguma cidade/estado e conseguir investimento privado, pois a operação não é tão barata, mas não é o fim do mundo também. Creio que a partir do ano que vem temos chance das coisas acontecerem" 

Participação do público

"É extraordinária! Estou nisso desde o início e nunca imaginei nem de longe que o Curling atingiria tamanha popularidade. Realmente é incrível, mesmo que ainda não tenhamos um nível de elite e muito menos uma pista no país. Eu acredito sim que possamos virar uma potência no esporte a médio e longo prazo. Os próximos dois, três anos vão ser fundamentais para ver se engrenamos de vez ou não"

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