Pioneirismo - Stephanie Gardner

No Four Continents (Arquivo Pessoal)
Ela pediu desculpas em responder as perguntas em inglês, mas no fim escreveu um "Vamos Brasil" em bom português. Filha de uma brasileira com um americano, adora visitar o Brasil e sempre se imaginou representar o país em torneios internacionais. Não, não estamos falando de Isadora Williams. A personagem aqui é Stephanie Gardner, uma das desbravadoras que abriram caminho para a evolução brasileira na patinação artística no gelo.

Ela é a terceira personagem da série "Pioneirismo", uma homenagem do Brasil Zero Grau ao Dia Internacional da Mulher e um reforço à campanha contra o fechamento do maior rink de patinação do país, no Rio de Janeiro (o link está do lado direito). 

As coincidências entre Stephanie e Isadora param por aí. Enquanto a segunda, mesmo com pouca ajuda financeira, resolveu encarar a dura rotina de treinos e competições, a primeira sucumbiu diante da decisão que sempre afeta jovens atletas brasileiros: seguir no esporte ou entrar para a universidade e ter uma carreira estável. 

Stephanie optou pela segunda escolha e decidiu pôr fim a um sonho breve, mas intenso. Nascida no dia 11 de novembro de 1989, ela começou a patinar com nove anos em Costa Mesa, na Califórnia. A inspiração veio com os Jogos Olímpicos de Nagano, em 1998, quando viu Tara Lipinski conquistar o ouro na disputa feminina. 

Começou a treinar com esse intuito. Até 2004 treinava e competia pela Associação de Patinação Artística dos EUA. Depois, passou para o time de patinação sincronizada ICE'Kateers. Esta é uma modalidade muito forte no país norte-americano, que consiste de 16 a 20 garotas patinando ao mesmo tempo no rink. Chegou a ficar na quarta colocação do Campeonato Nacional com a equipe em 2005. Mas no ano seguinte o sonho olímpico voltou a ganhar força.

"Em 2006 minha mãe ouviu de um amigo que a Associação Brasileira de Patinação no Gelo iria realizar o Campeonato Brasileiro. Iria acontecer num pequeno rink do Shopping Butantã. Eu decidi que iria participar do evento e comecei um programa com meus treinadores na Califórnia feito especificamente para um rink oito vezes menor do que estávamos acostumados", escreveu Stephanie ao Brasil Zero Grau. 

O torneio aconteceu em julho de 2006. Ela era a única mulher que possuía uma rotina de treinos e acabou vencendo a competição. Diego Dores, hoje brilhante comentarista da modalidade, foi o vencedor entre os homens. 

Com Iran Malfitano no Dança no Gelo (Arquivo Pessoal)
"Isso mudou minha vida para sempre", prosseguiu Stephanie. Um dos produtores do Domingão do Faustão a viu e a convidou para ser uma das instrutoras no quadro Dança no Gelo. "Eu tinha apenas 16 anos na época e adorei a ideia de trancar o colégio nos EUA e passar um semestre no Brasil e trabalhando na Globo. Eu aprendi a falar português assistindo novelas da Globo Internacional e conhecia todos os artistas! Era uma oferta muito excitante!". 

Convenceu os pais, trancou o colégio nos EUA e veio para o Rio de Janeiro participar da segunda temporada do quadro. Seu par foi o ator Iran Malfitano e eles foram os grandes vencedores. "Participar do Dança no Gelo foi uma experiência boa para mim. Mostrou-me que eu conseguiria atingir meus objetivos se trabalhasse duro para isso".

E da mesma forma que Simone Pastusiak (vencedora da primeira temporada), ela chamou a atenção de Eric Maleson, então presidente da CBDG e que era um dos jurados. Ele perguntou à Stephanie se ela gostaria de representar o Brasil no Four Continents de 2007, que aconteceria dali três meses. "É claro que eu pulei com a oportunidade de representar o país em um nível internacional! Era uma honra ser a primeira representante do Brasil num torneio oficial da ISU (União Internacional de Patinação)".

No dia 7 de fevereiro de 2007, lá estava Stephanie Gardner de volta aos EUA, mas agora como atleta brasileira no Four Continents, que aconteceu no Colorado. Como era a primeira atleta do país no âmbito internacional, homenageou a pátria da cabeça aos pés. Escolheu a música "Garota de Ipanema" para seu programa curto e usou um vestido com as cores azul, amarelo e verde, simbolizando a bandeira brasileira. 

Tanto amor, porém, não a classificou para o programa longo (que teria a música Carioca - Copacabana). Ficou na 26ª e última posição, com 18.69 pontos na sua apresentação. "Eu fiz um bom programa curto, mas não consegui avançar", contenta-se Stephanie. As 24 melhores ganhavam o direito de se apresentar no programa longo. 

Apresentação (Arquivo Pessoal)
Mas este era o menor dos problemas. Passado o Four Continents, era o momento de estruturar a modalidade no país e oferecer condições para que ela, Simone Pastusiak, Diego Dores, entre outros, pudessem sonhar com uma possível vaga olímpica. 

Havia a questão da logística (onde seriam os treinos), a questão financeira e até mesmo de agenda. "Queria fazer uma parceria com Flávio Francisco ou Diego Dores e montar uma equipe de Dança no Gelo que poderia treinar para os Jogos Olímpicos, mas percebendo a logística deles para ir até a Califórnia e treinar era complicado. Eu também cheguei naquele momento que deveria escolher entre os treinos e a universidade". 

E aí ela escolheu a universidade. Se formou em Literatura Comparada na Universidade da Califórnia e já está se formando em Arquitetura e Paisagismo na Universidade Estadual de Louisiana. Seu objetivo agora é construir um mundo mais sustentável. Quer se transformar em urbanista para planejar cidades que apoiam sistemas ecológicos. 

Patinação artística, agora, apenas como torcedora. "A modalidade influenciou bastante minha vida e me ajudou a ser o que sou hoje. Tenho muito orgulho de ser brasileira e de ter contribuído com esse legado da patinação artística, levado hoje pela Isadora. O Brasil tem um potencial muito grande. Seria bom se pudesse ter uma infraestrutura para que os brasileiros pudessem treinar numa pista com medidas padrões". 

Acompanhou Isadora Williams nos Jogos Olímpicos e torce para que seja apenas o início de uma longa jornada de sucesso. "O Brasil classificar uma atleta para as Olimpíadas já foi uma grande vitória. Desejo muita sorte e sucesso para a Isadora e que seja o começo da tradição brasileira na patinação no gelo", concluiu. 

Amor pelo Brasil

Com a bandeira brasileira: português fluente (Arquivo Pessoal)
Mesmo nascida nos EUA, Stephanie também possui fortes ligações com o Brasil - "sempre fez parte da minha vida", brinca. Sua mãe é brasileira e desde que ela nasceu sempre visitou o país pelo menos uma vez por ano para visitar os parentes em São Paulo. 

Aprendeu a falar o português aos 13 anos, assistindo as novelas da Rede Globo.  Depois, já na faculdade, estudou Literatura Comparada e usou a literatura brasileira como seu principal foco de estudo durante o período de graduação. 

Pedido

Stephanie quis dedicar essa entrevista a uma pessoa especial e atendo o pedido da nossa patinadora.

"Eu gostaria de dedicar essa entrevista para Jefferson Menezes, que era o presidente da Associação Brasileira de Patinação no Gelo em 2006. Jefferson era um grande defensor da patinação artística no Brasil. Ele amava o esporte e deu muitos passos necessários para o Brasil conseguir a classificação olímpica. Ele era um homem extremamente generoso, que me ensinou muito durante a Dança no Gelo e foi a razão pela qual eu fui capaz de representar o Brasil internacional. Ele morreu algum tempo atrás e faz muita falta. Ele ficaria muito feliz em saber que o Brasil participou dos Jogos Olímpicos de Sochi".

Um comentário:

  1. excelente post! uma pena a massa nem saber da existência de outros brasileiros pioneiros no gelo

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