Incansável

Alguns dos heróis; Hélio é o de preto, agachado no canto esquerdo (Reprodução)

Uma das imagens mais marcantes que tive ao longo de quatro anos de entrevistas foi a preparação do brasileiro de Hélio Freitas para os Jogos de 2006, em Turim. Inspirado pela delegação brasileira de 2002, resolveu aprender a esquiar e competir no cross-country quatro anos depois. Ele treinava no canteiro central de uma das principais avenidas de Campinas.

Considero este exemplo marcante por entender justamente que possui todas as características dos esportes de inverno no Brasil: as dificuldades, o atleta amador, o sonho e o preconceito sofrido. Em diversas entrevistas Hélio relatou xingamentos por "querer aparecer", segundo alguns dos revoltosos. Mesmo assim ele foi lá e fez história: foi o primeiro esquiador com residência fixa no país que garantiu índice olímpico e participou dos Jogos. 

O importante é que Hélio Freitas seguiu competindo. Se não conseguiu se classificar para mais uma edição olímpica por conta do aparecimento de mais esquiadores de cross-country, ele soube se reinventar como atleta. Dono de um fôlego invejável (foi triatleta amador na juventude), o brasileiro se especializou em provas de resistência na neve: além do cross-country, participou de algumas provas de triatlo de inverno, com o esqui substituindo a natação. 

Mas nada se compara ao feito histórico que ele ajudou a protagonizar neste fim de semana em Quebec, no Canadá. Aconteceu a primeira etapa da Copa do Mundo de Triatlo de Inverno com todas as provas voltadas ao clima frio: esqui cross country, patinação de velocidade e snowshoeing (corrida na neve com aquelas raquetes nos pés). É um novo formato testado pela União Internacional de Triatlo. O intuito é popularizar esse novo esporte e, quem sabe, sonhar com a participação olímpica. 

Grandes atletas participaram e deram aval ao torneio. Entre eles o russo Pavel Andreev, tetracampeão mundial no formato anterior (ciclismo/corrida/esqui), o canadense Jay Morrisson, campeão mundial de patinação de velocidade, e os atletas olímpicos Dusan Simocko, Marc-André Bédard, Joel Bourgeois, Benoit Lamarche e Lyne Bessette. 

Visita à família de Jaque Mourão (Reprodução)
E entre eles, o brasileiro Hélio Freitas. Incansável, aos 44 anos (fará 45 em outubro) segue fazendo história no esporte de inverno do país. Ele competiu no sábado, dentro das faixas etárias - as provas de elite aconteceram no domingo. Foram 5 quilômetros de snowshoeing, 12 quilômetros de patinação de velocidade e mais 8 quilômetros de cross-country.

Na classificação geral masculina o brasileiro ficou na 54ª posição com o tempo final de 1h40min07seg2. Ao todo, 85 homens competiram na prova e o vencedor foi Jules Rancourt, do Canadá. Na faixa etária (40-49 anos), Hélio foi o 21º dentre 32 competidores. 

O interessante é que o tempo dele na raquete e no esqui estão entre os melhores da prova. O que complicou foi justamente o tempo na patinação, o pior da disputa. Hélio aprendeu a esquiar poucos dias antes da prova - mais um exemplo da superação deste atleta. Teve tempo até de visitar Jaqueline Mourão, sua companheira de cross-country nos Jogos Olímpicos de 2006.

Fico feliz em saber que um atleta com tanta história nos esportes de inverno do Brasil segue se reinventando e quebrando barreiras. Que os esforços de Hélio Freitas possam ajudar no desenvolvimento deste novo esporte.

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