Esquiando no asfalto

Esgotado (Arquivo pessoal/Cristina Maçoneto)
Chegamos atrasados, para variar. Eu e minha namorada saímos de Bauru às 1h15 e desembarcamos em São Paulo pouco antes das 6h. Tempo de sobra, sem dúvida. Mas entre pegar o metrô, ir até a zona leste, deixar as malas na casa do meu tio, tomar café, voltar a pegar o metrô e ir até a USP aconteceu algo que nos fez chegar à clínica de rollerski às 9h30, trinta minutos após o início programado para o evento.

Para falar a verdade, eu sei o que aconteceu. Conversei demais com minha família no café da manhã, saímos quinze minutos após o planejado e ainda tomei o caminho errado quando saímos da estação Cidade Universitária. Minha namorada falou que era para um lado, eu achei que era por outro e o resultado disso, óbvio, foi o motivo deste atraso.

O sol estava fraco, teimando em se esconder das nuvens e nem dava sinal de que seria forte o suficiente para queimar minha pele após três horas de atividade (quatro dias depois meu pescoço ainda descasca). Encontramos uma roda de pessoas, um monte de bastões do lado e demos sorte, afinal de contas. "Podem entrar, vamos começar agora a atividade", nos convidou o anfitrião Leandro Ribela.

Havia cerca de 30 pessoas, incluindo aí cinco integrantes do Projeto Social Ski na Rua, adolescentes que encontraram na prática do rollerski uma ferramenta de inclusão social. Todos eles moram na Comunidade São Remo, ali mesmo, na USP, e seriam os nossos monitores ao longo da jornada.

A ideia que me fez sair de Bauru de madrugada e encarar quase cinco horas de viagem era a mesma que motivou os outros inscritos: sentir na pele a preparação que a maioria dos atletas brasileiros de esportes de inverno sentem ao longo dos meses. O rollerski é uma ferramenta que simula muito bem a técnica do esqui cross-country e serve de substituto para os atletas quando o hemisfério norte fica no verão e, consequentemente, sem neve.

Mas antes de colocar os rollerskis, aquecimento. Mas nada de alongamentos e polichinelos. Foram trinta minutos no gramado da Praça do Relógio pulando e esticando as pernas, simulando todos os movimentos que teríamos que fazer com rodinhas no pé.

Cartaz da Clínica
Foi o suficiente para me deixar coberto de suor e quando imaginei que teria que fazer tudo aquilo com rodinhas no pé comecei a cogitar que não teria sido uma boa ideia visitar o Festival Ruas do Esporte, evento organizado pela USP que abrigou a clínica de rollerski e tinha como intenção justamente isso: apresentar novas modalidades para as pessoas e estimular a prática de atividades físicas.

Foram apenas cinco minutos de descanso justamente para pegarmos nossas botas, bastões e rollerskis. Paulo Santos foi o meu monitor no início. Mal conseguia botar as botas, que precisam ser fixadas através de dois pinos, o que deixa seu calcanhar solto, por assim dizer. É ele que te dará o equilíbrio para se manter de pé, andar e deslizar, tudo nesta ordem.

Mas como é difícil! "No começo é assim mesmo. Eu também não saía do lugar", afirmou Paulo, tentando me motivar. Com 20 anos de idade completados hoje, ele é um dos mais velhos integrantes do Projeto Ski na Rua.

É também um dos que mais evoluíram na modalidade. Em apenas um ano de prática no rollerski ele já participa de training camps e ainda esteve presente no Brasileiro de Cross-Country em Ushuaia, na Argentina, arrancando elogios de todos por lá. "Nem sabia o que era rollerski. Jogava futebol com meus amigos até que surgiu o convite do Leandro. Hoje a bola é só por lazer. Quero muito disputar uma edição dos Jogos de Inverno", continuou.

A ideia dele era justamente tirar o meu medo. Aos poucos fui criando coragem. O planejamento de Leandro era o seguinte: algumas voltas com o rollerski apenas no pé direito, algumas com o pé esquerdo, mais algumas caminhadas com o equipamento nos dois pés e aí sim o uso de bastões para tentar deslizar como um atleta. Amador, mas ainda assim atleta.

"Na hora que vocês chegarem nessa etapa, deverão estar muito cansados", chegou a brincar Leandro. Mas ele acertou na mosca. Foram poucos que chegaram intactos nesta etapa. Minha namorada Cristina foi uma delas. Acostumada com atividade física, ela já estava com os bastões enquanto eu ainda tentava me equilibrar com o rollerski no pé direito.

O que era para ser apenas algumas voltas numa das ruas que cortam a Praça do Relógio se transformou numa tentativa frustrada de se manter de pé. Você tinha que distribuir o peso do corpo de maneira igualitária nos pés. Se você forçasse muito, o rollerski virava para dentro ou para fora levando você ao chão.

Depois de criar muita coragem, resolvi andar com o pé esquerdo, que no meu caso serve apenas para subir no bonde, como costumavam dizer os mais antigos. Mal conseguia deslizar. Ficava um, no máximo dois segundos em cima do rollerski esquerdo e com o pé direito levantado.

E nisso eu olhava para frente e via algum menino do projeto deslizando para lá e para cá, como um bom atleta de cross-country. Via Gustavo, jovem sem a perna esquerda, andando perfeitamente com o rollerski e já candidato a ser atleta paralímpico de inverno num futuro próximo. O meu medo era ridículo mesmo. Se eu não colocasse os dois rollerskis e pegasse os bastões, jamais veria por dentro o mundo de um atleta de cross-country.

"Medo é normal. Até hoje eu tenho medo para falar a verdade! Mas você aprende a conviver com ele e com os machucados. Esse aqui mesmo é recente", comentou Gideoni Nascimento, outro monitor, apontando para um grande ralado no braço esquerdo. Ele é um dos mais novos integrantes (está há seis meses no projeto) e também sonha em seguir no esporte. "Quero ser atleta sim. Já fui para São Carlos nos training camps e gostei muito. Quero sentir isso na neve e me tornar atleta".

Machucar é algo que faz parte mesmo. As quedas no asfalto foram normais, típicas de pessoas que testam seus limites e, consequentemente, avançam mais no esporte.  Minha namorada mesmo conseguiu avançar no esporte graças a um ralado no cotovelo.

A sincronia tem que ser perfeita. "Na maior parte do tempo esquiamos apenas com um dos pés", ensinou Leandro. Ao mesmo tempo em que um pé está esquiando, você precisa flexionar o joelho e projetar a outra passada com o outro pé, distribuindo o peso pelas duas pernas de maneira igual e ainda apoiar o bastão para dar impulso. Repito: tudo ao mesmo tempo.

Essa é uma das razões pela qual o esqui cross-country exige muito do corpo do atleta. Você faz tudo isso por muito tempo. As provas de sprint podem ter menos de um quilômetro, mas as de distance atingem 50 quilômetros em mais de três horas intermináveis de prova. 

Leandro dando orientações
O relógio já ultrapassa a marca de 11h e o sol que teimava em sair no início já está forte o suficiente para algumas pessoas pararem e outras buscarem copos d'água a todo o momento. Foi nesse instante, conversando com Gideoni, Paulo, Vítor, Leandro e todos os que fazem do rollerski e do cross-country partes da sua vida, que entendi a real beleza da sua essência. 

"Você aprende a valorizá-los", comentou uma senhora que não sei o nome e que também esteve presente durante a clínica.  É bem por aí. Nós fomos lá, tivemos contatos, nos divertimos, mas tudo não passou disso, uma diversão. Para eles, não. A diversão transformou-se em trabalho sério e a dificuldade virou beleza.

O cross-country nada mais é do que uma representação de nossas vidas. Passamos por muitas provações ao longo da nossa vida para sermos considerados vencedores. É a mesma coisa com o rollerski. Você precisa passar por uma série de dificuldades para dominar o equipamento e depois as condições climáticas para considerar-se um atleta vencedor. 

Era por volta das 11h30, trinta minutos antes do estipulado, que resolvi encerrar minha experiência. Sabia que não seria naquela manhã que eu conseguiria dar alguns passos a mais com o rollerski e os bastões. Bebi muita água, pingava suor e meus calcanhares e pernas reclamavam de dores. Mas compensou, e muito. Saí de lá convicto que o Brasil pode produzir talentos nos esportes de inverno e que, definitivamente, eu devo ficar do lado de fora, como jornalista mesmo.

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