Ponta de lança

Fernando com a técnica Anna Maria Nilsson (Reprodução/Facebook)

Ele se diz apenas a "ponta da lança". Mas não é justamente a ponta da lança a principal parte de uma arma? Tanto que no futebol, ponta de lança era a denominação antiga para o principal jogador do time, aquele camisa 10 de cujos pés saíam gols e lances maravilhosos. Um tal de Pelé foi o nosso principal ponta de lança...

Mas o blog não é sobre o futebol brasileiro e sim sobre os esportes de inverno do país. O ponta de lança em questão é mais um desses atletas pioneiros que geralmente pagam do próprio bolso para desenvolver modalidades pouco praticadas por aqui.

E não estamos falando de um esporte dito "convencional" pela grande maioria das pessoas. O papo aqui é sobre esporte paralímpico, num país onde os portadores de qualquer deficiência física ainda sofrem preconceitos.

Na verdade, o papo é muito mais do que isso. Estamos falando da primeira equipe paralímpica na neve do Brasil. Fernando Aranha, 34 anos, tornou-se no nosso primeiro atleta paralímpico a competir em provas oficiais de esportes de inverno. Ele competiu no esqui Cross Country adaptado e não esconde o desejo de disputar os Jogos Paralímpicos de Sochi, em 2014. 

Fernando com Leandro Ribela (Reprodução/Facebook)
Fernando,inclusive, não está sozinho na empreitada. André Cintra competiu no Brasileiro de Snowboard em agosto do ano passado e também estreará nesta temporada, visando os Jogos de 2014. O ex-BBB Fernando Fernandes, que depois de um acidente de carro virou tricampeão mundial de paracanoagem, começou a treinar o esqui alpino adaptado (apesar de não almejar vaga olímpica). Eles completam a lança que tem o paratleta na ponta.

"Essa iniciativa na verdade não é só nossa, dos atletas, e sim de um monte de entusiastas que por uma força resolveram se manifestar. Eu me sinto só a ponta da lança (risos). Por minhas andanças encontro outros atletas de outras modalidades que vem me perguntar sobre esportes de neve e as possibilidades de esportes para a prática", comentou o paratleta ao Blog. 

Isso realmente é bem pouco perto do que Fernando já conquistou e do que ele ainda almeja no mundo esportivo. E nem ouse pensar que ele tenha algum tipo de limitação. Paraplégico desde os dois anos de idade, sempre praticou diversas modalidades esportivas ao mesmo tempo em que se formou em Rádio e TV. 

Treinava basquete até 1999, quando se aventurou na sua primeira prova de endurance, com a São Silvestre no fim do ano. De lá para cá passou por corridas de ruas, maratonas, ciclismo e triatlo de competição a partir de 2009. 

Maratona S. Paulo 2011 (reprodução/Facebook)
Ganhou provas, como a Maratona de São Paulo, com um tempo mais de uma hora à frente do segundo colocado. Em 2012, foi vice-campeão da São Silvestre e ficou famoso por filmar trechos da prova que infelizmente matou um dos competidores, num acidente na descida para o estádio do Pacaembu. 

Mas antes disso, ele já havia iniciado os treinamentos na neve. O próprio Fernando admite que começou "ao acaso". Um encontro com o Leandro Ribela, principal atleta de cross country do Brasil, na USP para pegar dicas de treinamento para o triatlo. Um papo com Fernando Fernandes para saber sobre esportes de inverno e a lembrança da doutora Lia Steinberg de reunir todos os paratletas para o desenvolvimento das modalidades de neve. "Apenas aproveitei a oportunidade, que a meus olhos é única e honrosa", admite. 

Aproveitou mesmo. Ficou dez dias com a equipe brasileira de cross country e biatlo na Suécia. Competiu em duas provas e agora em fevereiro pretende disputar mais uma etapa da Copa do Mundo no país nórdico, dessa vez com uma preparação de duas semanas por lá para se acostumar mais com o frio. 

"O clima extremamente frio realmente é um fator importantíssimo que temos de adaptar. Eu nunca tinha sentido algumas das dores que senti lá. Mãos gelam, pés gelam, tornozelos gelam, tudo gela. Gela e dói muito", admite.

Mesmo assim, fez uma estreia boa. Foi o 24º na sua primeira prova, os 10 quilômetros da Copa do Mundo de esqui cross country adaptado em Vuokatti, na Finlândia. Ele ficou na frente de dois competidores que não terminaram a prova.

"O esporte é muito exigente, tanto na prática em si, como no ambiente de prática. E apesar do pouquissimo tempo de contato, acho que me sai bem e acima de tudo vejo condição real de melhora significativa para competir". 

Tanto que se o objetivo inicial era apenas treinar para os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, agora ele já cogita até mesmo intercalar o ciclismo e maratona com o esqui cross country adaptado. Vê com bons olhos a disputa dos Jogos de Sochi, no início de 2014. 

"Hoje meu objetivo real é Rio 2016 pelo triathlon e até mesmo pelo ciclismo. Mas vi uma oportunidade de representar meu pais em uma Olimpíada antecipada. Pelos calendarios desses esportes vislumbro poder conciliar sim as modalidades e ate mesmo uni-las, ja que no triathlon de inverno o cross country substitui a natação", afirmou. 

Mais um que se apaixonou pelos esportes de inverno. Afinal de contas, o que essas modalidades tem que fascinam muitos brasileiros que começam a pratica-las?  "Por nao ser daqui, ainda, traz uma curiosidade ao encontro dos brasileiros e recomendo a todos experimentarem ao menos uma vez na vida qualquer que seja o esporte de inverno e correr o risco de se encantar. É desafiador, é bonito, charmoso, divertido, é doido. É muito bom".

Pelo visto, Fernando Aranha será mais um cavaleiro que defenderá com unhas e dentes os esportes de inverno aqui no Brasil. Com ponta de lança e tudo.


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